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PARECE SURGIR NO HORIZONTE UM PRESENTE
PARA OS “AMANTES DA VELOCIDADE!”
Entrevista de Marcos Rizzon com o Dr. Sylvio Bertoli,
titular do Haras Santarém
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MR-
Semanas atrás o Andrusko publicou aqui no jornal uma notícia
sobre a vinda de um cavalo, chamado TIGER HEART. Dr.
Sylvio, durante anos tenho acompanhado a vitoriosa trajetória
do seu Haras Santarém e este reprodutor, neto de Storm Cat,
provou nas pistas ser um excelente sprinter. Primeiramente,
gostaria de saber por que um sprinter? |
SB–
Marcos, você me conhece há anos e sabe de meu interesse pela
criação e pelo turfe, principalmente no âmbito clássico. Pois bem,
acredito, que depois de todos estes anos de labuta aprendi algo. A
sobrevivência de um criador de médio porte como eu, num Mercado
como o brasileiro, está tão somente na exportaçāo de sua produção.
Ganhar troféus é realmente edificante, mas na hora de pagar os
empregados, a ração e consertar as cercas, estes troféus não
ajudam em nada. O criador que produzir o grande 2 anos, aquele com
velocidade, classe e precocidade, estará inclusive
ajudando aos proprietários, que além de se ressarcirem logo de
seus gastos, terão a oportunidade de vender seus produtos para o
exterior. Além disso, são os que mostram potencial na primeira
campanha, os únicos que estão ganhando lá fora. Vide Sandpit,
Siphon, Pico Central, Hard Buck e agora o Imperialista.
MR–
Pesquisando sobre seu reprodutor descobri que ele era portador de
uma velocidade inicial muito boa, estabelecendo em mais de uma
oportunidade parciais de 21”96 e 44”48, com uma vitória aos 2 anos
em
1.200 metros,
em 1’10”99. Este foi o fator que o fez decidir que ele era um bom
sprinter?
SB– Confesso que foi um dos fatores notados por mim e por
meu veterinário, o Fernando Perche. Mas o que me motivou mais foi
um artigo do Renato Gameiro que li em seu jornal, onde ele listava
as principais carreiras de sprinter nos Estados Unidos. Nesse
artigo o Gameiro ressaltava que para ser um bom sprinter nos EUA o
cavalo deveria ganhar ou se colocar em pelo menos duas das citadas
carreiras. Peguei os resultados de 2000 a 2004 das mencionadas
provas e descobri o TIGER HEART. Liguei para o Gameiro e ele me
disse que conhecia os proprietários. Iniciou-se uma negociação que
se desenvolveu durante meses. Felizmente, tudo foi concretizado.
Comprei a metade e o árabe que é dono da outra aceitou que
tentasse sindicalizar o restante aqui. Em caso negativo, ele
ficaria meu sócio.
MR-
Algum brasileiro já demonstrou interesse?
SB– Eu ainda não comecei a trabalhar TIGER HEART. O Gameiro
falou com alguns clientes e creio que o Afonso Burlamaqui (Santa
Rita da Serra) e o Claudio Ramos (LLC) já estão dentro. O Camil
(Ponta Porã) e o Ricardo Lowndes (Verde vale) mostraram interesse.
De minha parte tenho o Gilberto Koppe e o Haras Belmont Ltda
praticamente certos. Mas quando o cavalo chegar nos próximos
quinze dias é que começaremos a trabalhá-lo. Estamos olhando para
os parceiros que consideramos os ideais de forma a fazer deste
cavalo algo realmente importante para os criadores brasileiros.
MR–
Como o senhor conceituaria TIGER HEART dentro do contexto
nacional?
SB– Como um cavalo precoce, de extremos parciais e duro
como uma rocha nos metros derradeiros. Possui um físico soberbo e
um temperamento próprio; calmo e profissional. Os dois Grupos 1 em
que ele foi segundo, perdeu só no finalzinho, ensinando a todos o
caminho. Depois que passou para as mãos do último treinador, sua
subida de produção foi incrível. Era o terceiro nome da lista para
correr a Breeders’ Cup Sprint, que na verdade foi ganha por seu
companheiro de cocheira e secundada por cabeça pelo cavalo que
havia ganho dele a última por 1 corpo. Tudo isto somou.
Impressionei-me ao ver suas carreiras. São de arrepiar. Além do
mais, avalizado pelo Gameiro que conhece melhor do que todos o
mercado, não pensei muito. Quero exportar como todos e creio que
TIGER HEART é uma excelente opção. Quando o Gameiro esteve aqui e
me comprou um filho de Impression, que havia batizado de “Glória
de Campeão”, senti exatamente onde o Gameiro queria chegar. Ao
cavalo de exportação. Hoje, meu crioulo parece ser um dos melhores
no Rio de Janeiro e fatalmente será exportado.
Tenho também a dizer que a mãe de Tiger Heart me convenceu, já que
além dele produziu uma das melhores potrancas desta ultima
geração, que ainda em campanha já conta com perto de US$ 500.000
em prêmios. Ademais,
ela vem de uma família que já produziu importantes garanhões.
Olhando meus alfarrábios vi tratar-se da mesma família de nomes
que sempre admirei como Tetratema, Barathea, Sheshoon e
Charlottesville.
MR–
Então foram estas suas razões?
SB- Houve ainda uma outra razão. Mas ela é de âmbito
técnico. Sou homem prático mas nunca duvidei de certas teorias. O
cavalo é transmissor do X-Factor, fator sobre o qual o Gameiro
tanto tem escrito em seu jornal. Por sinal, especialmente meu
veterinário Fernando Perche, tem observado semanalmente, que este
fator está presente nos ganhadores das principais provas do mundo.
Logo isto é um fato e eu nunca fui homem de discordar dos fatos.
MR–
O fator Storm Cat influenciou na sua decisão?
SB– Sem falsa modéstia, embora com reduzidíssima produção
nos primeiros 26 anos, que nunca passou de 10 produtos devido a um
espaço limitado, orgulho-me de ter produzido, com os mais diversos
garanhões, ganhadores consistentes, que correram dos 2 aos 8 anos.
Mas, a verdade é que nunca tive um garanhão com as grandes
características recomendadas: precocidade, velocidade e
classe. Eu podia criar bem, mas transmitir estas
características só o garanhão pode fazê-lo. Além destas
características que o mundo turfístico exige, TIGER HEART descende
da linha do cavalo mais valorizado do mundo no momento: STORM
CAT. Penso ter encontrado esse garanhão depois de tantos anos
de paixão, gastos, muitas alegrias e muitas decepções e desgostos.
MR–
Como foi o início de Sylvio Bertoli no turfe? Qual a sua idade?
SB– Não sou muito velho, sou antigo! Estou com 78 anos.
Filho e neto dos colonizadores do Alto Vale do Itajaí, nasci
praticamente numa fazenda, como era a hoje cidade Rio do Oeste,
que era a sede da colonizadora. Naquele tempo, a melhor e única
distração era a “raia”, que hoje tem o nome de cancha reta.
Naquele tempo o treinador era chamado de “compositor” e o partidor
de “xeringa”. Daí, o primeiro amor da minha infância eram os
cavalos, que eu montava com muito garbo e valentia já aos 5 anos.
MR–
Quando resolveu fundar o Haras Santarém?
SB– Vieram os estudos e o destino me levou para Curitiba.
As paixões da infância nunca morreram. Em 1966, numa causa
jurídica, acabei recebendo como pagamento de honorários 4 e ½
alqueires de terra, aos quais fui agregando mais 7 e ½ alqueires,
no então distante bairro de Campo Comprido,
10 quilômetros
do marco zero de Curitiba. Hoje lá está situado um modelar campus
universitário, o UNICEMP. Como a área era muito pequena e não
daria para uma fazenda, e, como tive por ela um amor à primeira
vista, resolvi fazer um pequeno haras, atividade que não
necessitava de tanto espaço. Surgiu assim o Haras Santarém.
MR–
O senhor disse que sempre criou cavalos consistentes (leia-se “bem
criados”), pode citar alguns?
SB– Nas minhas primeiras gerações, que começaram em 1968,
com apenas 4 produtos, criei “SUPERNO” por Nordic, 4 vitórias
em Cidade Jardim;
“SITIEIRO”, por Jackmar, 9 vitórias na Gávea; “SÍMPULO”, por
Queisto, 11 vitórias na Gávea e “SATYRICON”, por Major’s Dilema, 6
vitórias
em Cidade Jardim.
Em
1971, iniciei com a primeira letra “A” (já passei para a segunda).
Grande destaque foi ABAÍBA, primeira ganhadora de grupo criada no
haras, filha de Twinsy, adquirida pelo renomado Haras Santa Ana do
Rio Grande, para quem ganhou vários clássicos e como reprodutora
produziu vários clássicos e é inclusive avó do Derby Winner “CORE
BUSINESS”!
Ultimamente, “DRAGONET”, por Parme (exportada para a Irlanda para
servir diretamente na reprodução), “CYLLARUS”, por Parme; ENDLESS
BEAUTY”, por Roi Normand; “ELFISHNESS”, por Blush Rambler;
“FRISSON PORTENHO”, por Missionary e “ALUCARD”, por Patio de
Naranjos, fazem parte de muitos outros que me deram e continuam me
dando muitas alegrias.
MR–
O senhor falou em muitas alegrias e muitos desgostos. Quais foram,
como criador, as maiores alegrias?
SB– O espetacular desempenho dos produtos de Orff nas 4
gerações que deixou. Na primeira, “GAIATO” ganhou o Derby, o GP
Governador do Estado, além do Clássico Rafael Paes de Barros,
Grupo 2,
em Cidade Jardim;
“GABELLINO” tem dois 2ºs lugares em prova de Grupo 1, o GP Paraná;
“GAROLA” foi clássica com prova de Grupo
em Cidade Jardim. Na
segunda geração Orff produziu “HÁÜY”, ganhador de 13 carreiras,
inclusive o Derby e o GP Governador do Estado em tempo recorde.
Orff produziu animais clássicos nas outras duas gerações.
MR–
E quais foram os grandes desgostos?
SB– A morte inexplicável de Orff, que caiu fulminado
galopando no meio do piquete, como se um raio o tivesse atingido.
Também o infortúnio de Gaiato, que já com inscrição paga para
participar do GP Brasil, no último apronto, na pista do Tarumã,
pisou numa pedra, fraturou a terceira falange e nunca mais foi
sequer a sombra do mesmo cavalo. Recentemente, a morte num
acidente estúpido, de “INDIGO CAT”, quando terminava campanha nos
USA para em seguida vir ao Brasil. Quando yearling fora o maior
preço de um filho de Storm Cat no leilão de Keeneland. Talvez
viesse a ser o maior preço de um cavalo importado para servir de
garanhão no Brasil. Eu era o maior cotista brasileiro.
MR–
Qual o melhor cavalo/égua que viu correr?
SB– Sem dúvida, minha paixão sempre foi o “Yatasto”. Dos
cavalos brasileiros o que mais me impressionou foi o “Boticão de
Ouro”. Quem teve a oportunidade de ver sua última corrida nunca
apagará a cena trágica e ao mesmo tempo heróica do que viu. Com
uma canela fraturada ao meio, um cavalo de um coração do tamanho
do mundo e uma coragem e valentia que nunca mais serão vistas, com
o toco da mão balançando de um lado para o outro e ele querendo
alcançar o disco brigando pela vitória. Uma cena que nem o maior
cineasta e com todos os recursos da modernidade jamais conseguirá
sequer imitar.
MR–
Como o senhor vê a nossa criação hoje?
SB– Ao mesmo tempo em que se vê um TNT, um Santa Maria de
Araras, um Old Friends e mais uma dúzia de abnegados não medindo
esforços para o maior desenvolvimento de nossa eqüinocultura,
constata-se o maior desprezo por parte das nossas autoridades e de
muitos dos nossos administradores, parecendo que desejam acabar
com o turfe. Cada dia se vê mais criadores liquidando seus
plantéis e encerrando as atividades. Criamos hoje praticamente a
metade do número de produtos de 20 anos passados. Os argentinos,
chilenos, australianos e outros mais agradecem o completo
desinteresse do nosso governo, que ao invés de incentivar procuram
dificultar a criação nacional. Com isso aumenta o lucro de nossos
concorrentes.
MR–
E as administrações?
SB– Um número enorme de gente procurando ou se agarrando
aos “cargos”, e muito poucos responsáveis pelos seus
“encargos”. Gente formada, inteligente e muitas
vezes procedentes de belíssimas famílias que não conseguem
enxergar o óbvio. Quem possibilita a beleza do esporte, quem
patrocina as festas, a construção de canchas esportivas é o “artista”,
ou seja, “o cavalo”. Mas infelizmente este é o mais
esquecido, juntamente com seus criadores e proprietários, que são
na verdade os que ainda seguram o turfe, mesmo que com apenas um
fio de esperança. Não se aumentando os prêmios não se aumentarão
as apostas e nem o número de proprietários e novos turfistas. Isto
acontecendo, cada dia mais liquidações e menos gente nos
hipódromos. Quando os prêmios davam alguma esperança, era cada vez
maior o número de pequenos proprietários e novos turfistas.
Aqueles que tinham apenas um ou dois animais e quando ganhavam uma
corrida, iam para a foto com toda a família, beijavam o animal, o
jóquei, o treinador e subiam com aquele sorriso largo porque, além
de tudo sabiam que a pensão do animal estaria garantida por vários
meses. Era a alegria deles que nos contagiava. Hoje, isso acabou.
São apenas alguns apaixonados que sustentam o tênue turfe, apesar
de muitos administradores e autoridades estarem fazendo um esforço
imenso para vê-lo desaparecer.
MR–
E os leilões?
SB– São o reflexo do que acabo de lhe dizer. Numa época de
grandes dificuldades, qual é a paixão que consegue arriscar numa
atividade de lazer que não lhe dê a mínima esperança? É isto que
os administradores e nossas autoridades não são capazes de
enxergar. Está faltando um ministro Osvaldo Aranha e um presidente
Almeida Prado para mostrar a beleza de um esporte sadio, limpo e
que dá emprego (poderia dar muito mais) e alegrias a tanta gente.
MR–
Quando será o seu?
SB– Vou fazer uma última tentativa em 5 de maio, no
Tattersall da Gávea, juntamente com outros três criadores
paranaenses, levando apenas 10 produtos que tem apelo junto aos
turfistas do Rio. Deverei levar 5 para São Paulo, na semana do
Grande Prêmio. Serão produtos que possuem o maior apelo junto aos
turfistas de Cidade Jardim.
MR–
O que mais poderia me dizer sobre as razões que o levaram agora a
pilotar a compra do TIGER HEART?
SB – Embora seja cotista de garanhões testados como BLUSH
RAMBLER, FAHIM e PARME, e de garanhões de quem muito se espera
como GIANT GENTLEMAN e IMPRESSION, eu sentia falta daquele
garanhão perfeito que demonstrasse possuir as características que
todo criador sonha: precocidade, classe e velocidade.
Embora não exista nada garantido na esfera do turfe, tenho quase
certeza que o encontrei. E você há de concordar comigo quando
tiver oportunidade de ver o DVD com 6 carreiras do TIGER HEART.
Pode parecer presunção minha, todavia depois de vistas as
carreiras, você que é homem chegado à reta e à velocidade, vai
entender o que quero dizer, sem necessidade de maiores
explicações. Tiger Heart tem aquela velocidade inicial que falta
no cavalo brasileiro.
MR–
Um sonho do Bertoli como criador?
SB– Nunca escondi de ninguém que eu me consideraria o
criador mais realizado do mundo se conseguisse criar um “YATASTO”.
Compraria um avião com um ou dois containers para 4 ou 5 animais e
correria o mundo me divertindo com corridas de cavalos. Para não
me delongar, perguntaram ao grande Leguisamo – Qual o melhor
cavalo que o senhor montou? – a resposta veio num repente: “YATASTO”.
O repórter perguntou então, qual o melhor cavalo que o senhor viu
correr? Num bate pronto a resposta: “YATASTO”.
MR–
E o futuro do turfe?
SB– O futuro vai depender de alguma autoridade se dar conta
de que este é o esporte mais democrático do mundo, que beneficia a
pobres e ricos, sem discriminação, sadio e que poderia
proporcionar muitas divisas ao país. Também de bons
administradores que tenham a honestidade e o zelo para deixar de
lado interesses pessoais e cuidar do turfe como se isso fosse a
atividade e o sustentáculo da família.
MR-
Como o senhor encerraria nossa entrevista?
SB– Desejando que todos, turfistas, administradores e
autoridades vejam e entendam porque há milhares de anos o ser
humano mantém uma relação tão íntima com o cavalo, passando a
tratá-lo e dar-lhe o espaço que ele merece. Além de abrirem os
olhos e enxergarem porque os argentinos nesse setor estão 50 anos
na nossa frente. Se não lhes dessem os cavalos muitas alegrias e
divisas, não teríamos um Carlos Gardel cantando por “una cabeza”.
Ou será que só os meus antepassados, os romanos, sabiam elevá-lo
ao pedestal dos campeões das bigas.
A história completa do Santarém você poderá conhecer no resumo de
nossa vida e toda produção, acessando o site
www.harassantarem.com.
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